"A profundeza abissal da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem abstrata
das mãos (gestos prontos),
e o atrito dos dias confunde as cicatrizes do tempo,
derramado sobre a mesa o poema
ignora nas pálpebras o pesadelo do sonho"

(Júlio Rodrigues Correia)





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4 de out. de 2010

onde tudo se congela


Quando não há primavera
uma mais para ser dita
onde tudo se congela
onde se espreme flor
e de lá a saudade se apresenta
e a mesa, em meus olhos,
é a própria avenida
já gasta e percorrida
onde tudo se congela
até os molhados versos
que faço a você
são alimento frio

cíntia thome




















Imagem: Tela de Antonio Henrique Amaral

1 de out. de 2010

HORA GRANDE

Tela - Francis Bacon



Minh’alma não se degrada
Não há líquido que faça derreter
Transforma-se, não enferruja
Descasca-se, enruga
Brilha metalizada
Quando a água vem e vem
Regendo orquestras
Do que pulsa, do que resgata
Há cheiro dócil da terra
Cio da carne, amor pleno
ciclos e suas ogivas
Estelar azulada, púrpura
Corre veia, veio, rio
entremeio de refrões
Dorme minha alma branca
à hora grande, até a chegada
Do outro ponteiro
da meia-noite
do meio-dia
Expurga sentidos
Lágrimas das mágoas
Mesmo ferro
Mesmo massa
Mesmo sangue
Não enferruja
Porque saliva
O Divino vinho



Cíntia Thomé


























****Tela - Francis Bacon

21 de jul. de 2010

DE MIM


DE MIM

Momentos blues
morfinadas retinas
não desatinam o passado
os belos anos flor

descontrolo pensamento
fatos slowmotion
um passo, outro passo
traço desconecta, finda
outro traço fica
o real, a verdade
a que ponto chegamos?

a viagem de volta
sem a plugada paixão
coberta de razão
horas passam
desacelera amor
Último minuto chegando
Como? Quando...sem aspas


Recuerdos
tolos
assim vai o tesão
em petit-pois

Até o ponto
Final
Qual?
Se você tirou
minha vida
o meu vestido...
petit-pois
Recuerdos.

Cíntia Thomé









.....

28 de fev. de 2010

ANJOS DO ASFALTO


ANJOS DO ASFALTO

Anjos do asfalto
Fizeram-me um assalto
Socorro!
A dor deita-me
no asfalto, grito alto
corpo curva-se
pra baixo, pra baixo
No meio, no meio fio
que frio...frio..

Na sarjeta
O rosto arranhado
Tatuado o mar
Sinal, semáforo
Fotografa fotografa
A direita do Pai, ponto cruel
Leva-me com suas asas
Morreu de dor
O amor sem direção
Elos partidos... quebra anel
A ponte sem rio

Indolor voa pelas folhas
os olhos, fechados
Chupando todas as lágrimas
Secando-me o corpo
Boca sangra
A senha inválida,
teu pequeno nome
Para continuar a viagem
Em sonhar em ir até
Onde? Pra onde, pra onde..
Sei lá, não sei, não sei
Ao destino imprevisível
Sem pára-brisa, contra a brisa
A você... Você
será que sei, nem sei

Ir sempre o pensamento
A você, a você
Está chegando, está...
A saída marginal
Aos seus estáticos pés
Sento-me desvairada
Um assalto vai ao alto
qualquer manchete de jornal

Anjo do asfalto
Anjo do céu, dê asas
Estou a deriva , pra quê?
pra quê..pra quê...
sem saber o que virá, se virá
será que sei, nem sei
Ainda falo alto estrada afora
Quebra meu salto
pra sair afinal
sem sinal..


Cíntia Thomé



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Foto Olhares.com - Carla Sousa

15 de fev. de 2010

PICASSO








Os olhos
Arregalam
Arregalados
Entre a guernica
E a paloma
Dentro de si
em coma
d’alma...
Olhos cerrados
Voa... voa...
Pela paz



Cíntia Thomé




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