"A profundeza abissal da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem abstrata
das mãos (gestos prontos),
e o atrito dos dias confunde as cicatrizes do tempo,
derramado sobre a mesa o poema
ignora nas pálpebras o pesadelo do sonho"

(Júlio Rodrigues Correia)





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28 de fev. de 2010

ANJOS DO ASFALTO


ANJOS DO ASFALTO

Anjos do asfalto
Fizeram-me um assalto
Socorro!
A dor deita-me
no asfalto, grito alto
corpo curva-se
pra baixo, pra baixo
No meio, no meio fio
que frio...frio..

Na sarjeta
O rosto arranhado
Tatuado o mar
Sinal, semáforo
Fotografa fotografa
A direita do Pai, ponto cruel
Leva-me com suas asas
Morreu de dor
O amor sem direção
Elos partidos... quebra anel
A ponte sem rio

Indolor voa pelas folhas
os olhos, fechados
Chupando todas as lágrimas
Secando-me o corpo
Boca sangra
A senha inválida,
teu pequeno nome
Para continuar a viagem
Em sonhar em ir até
Onde? Pra onde, pra onde..
Sei lá, não sei, não sei
Ao destino imprevisível
Sem pára-brisa, contra a brisa
A você... Você
será que sei, nem sei

Ir sempre o pensamento
A você, a você
Está chegando, está...
A saída marginal
Aos seus estáticos pés
Sento-me desvairada
Um assalto vai ao alto
qualquer manchete de jornal

Anjo do asfalto
Anjo do céu, dê asas
Estou a deriva , pra quê?
pra quê..pra quê...
sem saber o que virá, se virá
será que sei, nem sei
Ainda falo alto estrada afora
Quebra meu salto
pra sair afinal
sem sinal..


Cíntia Thomé



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Foto Olhares.com - Carla Sousa