"A profundeza abissal da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem abstrata
das mãos (gestos prontos),
e o atrito dos dias confunde as cicatrizes do tempo,
derramado sobre a mesa o poema
ignora nas pálpebras o pesadelo do sonho"

(Júlio Rodrigues Correia)





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28 de jun de 2011

retratos não existem


todos os retratos não existem
são parados no tempo
e o tempo leva, leva
leva todas as imagens do ontem
sua pele não é a mesma, os abraços são frouxos
os pés lentos, o vigor esmorece
não direi que não encontro flores
mas muito difícil ver você numa delas
talvez tão murcha quanto eu
quanto o nosso passado, nosso amor
retratos delatam momentos
não esquecemos dos movimentos, dos sorrisos
como será que estás?
e como estou?
sou haste que ainda perdura
altiva, coloração de risos
com os olhos arregalados, assustados
expressão única e última, ainda vitrine
melancolia parada, injusta, mas sorriso
mais injusto é morrer num retrato
não ter mais o som da voz
não ter rugas, não dar um passo a frente
perde-se um amigo, sem manchete, sem notícia
retratos estagnam a mente,
cobra passado, cobra o presente
correm sonhos, vontades
algo como uma nuvem bucólica
nesse frio das minhas mãos de inverno
ainda presença quente, desideratos
queimadura na minha alma, algo indizível
que direi? nada! prefiro o silencio
não sei se estás morto, também não sei morrer
mas aqui procuro entre perfumes das ruas
num saturday sun
ainda exalas o teu olhar ao nada
o medo de ir, mas foi ,
escapou as minhas mãos, um pequeno nome
aos meus olhos, a minha vida repousa
no cheiro que deixaste, a dúvida
o fim sempre foi sua essência ímpar,
sua fotografia
que nunca tive




cintia thome








Foto@cintiathome
manipulada

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