"A profundeza abissal da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem abstrata
das mãos (gestos prontos),
e o atrito dos dias confunde as cicatrizes do tempo,
derramado sobre a mesa o poema
ignora nas pálpebras o pesadelo do sonho"

(Júlio Rodrigues Correia)





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29 de jul de 2010

CONSCIÊNCIA FÊMEA (EU ACONTEÇO)


CONSCIÊNCIA FÊMEA

Eu aconteço
No silêncio que ensurdece suas veias
No seu hálito de ervas daninhas das dores de seu mundo
Na maresia que molha seu ser arenoso
No céu turmalina que declamas paixões efêmeras
No derrame líquido do masturbar das palavras vãs

Eu aconteço
Nos dois frutos imaginários que apertas em suas mãos
No seu peito cheio reclamante
No incenso de rosas e cravos que aspiras
Na carnuda pétala da minha boca na sua
Nos veios em seu rosto em rio caudaloso

Eu aconteço
No sol maior que te rasga o braço
No querer de meus dedos em seu ventre
No escorregar do limbo de meus dentes
Na nuca arrepiada quando o passarinho canta
Na floresta do desejo recolhido

Eu aconteço
Nos delírios albergados de sua alma
No prazer das manhãs cortando seu sono
No papel de seda que embrulhaste as suas loucuras
No santuário infernal que jogaste seu preço
No buscar dos erros confessos que odeias

Eu aconteço
No contorno que faz de meu corpo no seu ar pesado
Na queixa da insatisfação quase perene
Nas viagens da barca sem remo e direções
No perder da feminina folha lasciva dos seus outonos
No precipício de seu sofrimento incolor

Eu aconteço
Nas suas pálpebras algemadas às minhas
No teclado preso em sua boca rasgada
Na criança que Baco faz de ti
No par de gaivotas e quatro asas na chuva
No beco da sua existência sem resquícios

Eu aconteço
No início da dor do querer com todas as vadias
No final em frenesi dos ponteiros juntos
No ejacular precoce da sua carne derrocada
No quarto, na sala de estar, no banheiro das mentiras.
No arrependimento em tormento

Eu aconteço
Na ferida de minha cavilha em seu lembrar
Na sincronia feroz com prazo do tempo acabado
Na demência, na adrenalina catalisada.
Na luz em movimento que serpenteia seus pelos
No clamor que fazes de mim, no horror.

Eu aconteço
Na boca do azar de suas palavras
Na sua morte, no seu pecado.
No amor ardente que te cegou.
Eu vivo.

Eu aconteço!


Cíntia Thomé






Livro



















Imagem: Olhares

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