"A profundeza abissal da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem abstrata
das mãos (gestos prontos),
e o atrito dos dias confunde as cicatrizes do tempo,
derramado sobre a mesa o poema
ignora nas pálpebras o pesadelo do sonho"

(Júlio Rodrigues Correia)





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13 de mai. de 2010

ETERNIDADES



ETERNIDADES

Na grama joaninhas e formigas
Margaridas, maria sem vergonhas, hortênsias
Aquele tanque velho,colado a parede, ao muro verde
parecia um lago, um mar sem fim
Recebia eu um afago, sorriso largo
Ao cheiro da manhã entre limoeiros e mangueiras
No varal, roupas dançavam ao som miúdo do vento
Uma mão sobre a minha
Dobrando papéis alvos
Barcos, barquinhos
Estórias de alegria transparente, meu pai
Indo e voltando de terras imaginárias
Piratas, soldados. Desbravar!
Glórias, riquezas
De sua mão para minha
Eternidade

Ah!a estória de moça, eu ria...
De cintura fina, vestido rosa, chapéu panamá
Sombrinha levada longe entre cisnes
Para um beijo, selando amor
Namoro
Uma eternidade
De princesa, anseio de meu pai
Desejos para a sua criança
Barco ia, barco voltava
A manhã era cortada com ruídos
saltos pela escada da casa
Chamavam por meu pai
A princesa dele
Uma eternidade que ia...

Ficava eu sozinha
com joaninhas e formigas
entre gérberas e maria sem vergonhas
Esperando glórias de amor nas barquinhas
No tanque que rachou um dia
Como trincados do salto de minha mãe
Sem a mão em sorriso a navegar
Uma eternidade

Uma xícara de chá me acompanha
na memória um lago,um barco partindo
mão sobre mão, quentes
nessa água fria com limão
Riqueza nesse pequeno e limitado mar
na louça reflete
Um vestido rosa flor
Que foi minha vida
Uma eternidade de amor




Cíntia Thomé
2003





Imagens @direitos Autorais de Cíntia Thomé - série "Segundas"

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