"A profundeza abissal da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem abstrata
das mãos (gestos prontos),
e o atrito dos dias confunde as cicatrizes do tempo,
derramado sobre a mesa o poema
ignora nas pálpebras o pesadelo do sonho"

(Júlio Rodrigues Correia)





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11 de fev de 2010

É FLOR



É FLOR






Lá se foi a casa, o quarto
Lá se foi os objetos, os dejetos
La se foi amigos
Lá se foi pai, o filho
Lá se foi o grande amor
Lá se foi o possível amor
Lá se foi até Jó,
Jó não suportaria
Nem em pedras, nem em sal
Nem em fogo, nem aos leões

Ah! Flor de tantos outonos
A flor andante que exubera
Com folhas verdes
Cega, cega vermelha
Em sua seiva destila
Restos de beijos de borboletas
Borboletearam dançaram
Pisaram pétalas
Mas em braços impunha-se
Abraços, em carícias
As delícias

Ah! Flor de tantos outonos
Mastigou as perdas
Pra ela, quase nada
Pela força tamanha
Do corpo, do caule
A flor que carrega a Terra, as raízes
No peito aberto dos perfumes

II


Ah! Flor de tantos outonos
Lá se foi o pássaro,
aquele do ninho, do beijinho,
beija-flor das manhãs
Mas de quebra, deixou a asa
Asinha de carne e seus cabelos,
junquilhos d’ouro e o vivo sangue
De amor, de beleza nos veios
Artérias, um aneurisma doce
Fruto cuspido, mas pra sempre
A semente criança da mãe-floreira

Ah! Flor de tantos outonos
Jó se afastaria dessa tamanha flor
Que não fenece, exala esperança
Na cidade de ninguém, ninguém
Pois lá se foi o castelo
O Rei, exércitos e infantes
Lá se foi o broto, a semente
Lá se foi tudo, o inimaginável

Ah! Flor de tantos outonos
Não seca, não cai
Dentro de tantos ais aos Deuses
Aos homens, grandes e pequenos
Escora muros, paredes
Sem ser plástica, objeto
Não se entrega às ervas daninhas
Não deixa ser comida, devorada pelos males

Ah! Flor de tantos outonos
Escorre sangue, verte água
Chora e alimenta-se
Do próprio óleo da lágrima
Sem ver o sol que tanto esperava
Sem sentir a chuva da benção
De ser arrancada e levada
aos altares, à cama dos amantes
A terra prometida, a promessa
reversos de corpos, caules
a fazer delícias

Ah! Flor de tantos outonos
Sonho em desfrute de sexo e amor
Pela mão de um só homem
caule que entrelaça másculo
Do sonho da infância
Aquele da velha juventude
Que dirá, quem sabe,
Da outra existência (?)
Aquele que a deixou crescer
Nos labirintos do sentimento maior
Antes, durante e depois
Em lamento de amor
Que lá não se foi e não se vai...
Pra ser apenas nua flor
Despojada que brilha
Nas noites
E amanhece
permanece
Para crer


Cíntia Thomé









"Posso Tudo Naquele que me Fortalece..."





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Imagem: Cíntia Thomé

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