"A profundeza abissal da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem abstrata
das mãos (gestos prontos),
e o atrito dos dias confunde as cicatrizes do tempo,
derramado sobre a mesa o poema
ignora nas pálpebras o pesadelo do sonho"

(Júlio Rodrigues Correia)





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14 de set de 2011

Felipe Morozini & Laura Gorski na Zipper


Felipe Morozini


Laura Gorski



Felipe Morozini

"Primeira Individual Retrospectiva"


De 17 de Setembro a 08 de Outubro, 2011





É tudo verdade. Num prédio da Avenida São João, em São Paulo, um homem de corpo dourado e cabelos grisalhos todos os dias senta-se na varanda para olhar uma coleção de relógios. No outro prédio, todas as manhãs uma mulher bate bifes com um martelo de carne, no mesmo ritmo do sexo bruto que vive todas as noites. Um cachorro toma sol numa varanda cujo piso é trocado frequentemente: de ardósia para lajota para cimento.
Um homem jovem numa janela segura uma câmera e diariamente invade em zoom a vida dos vizinhos, registrando esses hábitos e mazelas. Depois, analisa as imagens e acha pedaços de poesia inintencionais. Amplia então a fotografia de uma mulher nua, numa área de serviço cujas paredes são deliciosamente gastas pelo tempo. Ela segura um espelho, que reflete seu bico do seio. O acaso tem uma face erótica, revela a fotografia de Felipe Morozini. Que o artista tenha escolhido a luz, o dia em que roupas coloridas formavam uma curva na parede cinza, e tenha esperado o corpo da mulher repetir a linha escura vertical que centraliza a composição. Aceito. Mas não foi ele quem mirou o espelho para o mamilo no instante certo. Foi o acaso. Extrativismo estético auto-sustentável: o fotógrafo colhe migalhas do belo que existem naturalmente no mundo real.
Voyeur, invasor, redentor da fealdade do campo urbano, Morozini admite a parceria com o acaso na construção do coeficiente de arte de suas fotografias. Como definido por Marcel Duchamp, “o coeficiente artístico é como que uma relação aritmética entre o que permanece inexpresso embora intencionado e o que é expresso não intencionalmente.” Felipe Morozini, assim, trabalha como artista e espectador de sua obra: clica intencionalmente e depois amplia o que não foi intencional. Talvez seja essa a fórmula da beleza convulsiva de suas fotografias do cotidiano paulistano, como “Noiva do Vento”, uma sequencia de quadros na qual uma cortina branca escapa da janela e abre-se toda para os carinhos do vento, liberada.
Felipe Morozini é bacharel em direito e há anos trocou a toga pela máquina fotográfica, com a qual desenvolve, além de seu trabalho artístico, fotografias para revistas e catálogos de moda. A cenografia é outro campo de atuação para esse artista que não sabia que era artista porque não acredita que existam não-artistas. Há arte nos gestos mais banais, na vida comum emoldurada pelas janelas que se debruçam para a Avenida São João.

NA ZIP'UP


Laura Gorski - "Paragem"




“Mas não excluímos a possibilidade de um povo que se configure segundo o que Rimbaud tocou quando disse 'un peuple de colombes' livre e aberto.”1 O comentário, escrito em letra cursiva e imerso na superfície negra de uma lousa, acompanhava um conjunto de traços delgados, esboço de uma estrutura arquitetônica que tanto se assemelhava às bases de uma edificação quanto a um píer.
O quadro-negro com o píer se firmou como um dos pontos altos de Desvíos de la Deriva – Experiencias, Travesías y Morfologías, impecável mostra com curadoria de Lisette Lagnado realizada no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri, no ano de 2010. Tratava-se de uma reconstituição de elemento da forte poética assinada pela Escola de Valparaíso, datado de 1972 e exibido originalmente no Museu Nacional de Belas Artes, em Santiago, Chile. Uma das mais singulares experiências no cruzamento entre utopia urbana, poesia e arquitetura na América Latina, a Escola reverbera contemporaneamente no site specific realizado por Laura Gorski na sala Zip'Up, o primeiro do espaço. A artista paulistana elege como centro de sua obra a representação de um píer, que parece se libertar das cordas, amarras e estacas ligadas a um solo movediço e que resulta na criação de um movimento mais propenso à levitação e menos ao enraizamento.
Instante de suspensão poética em meio à estrangulada teia urbana de São Paulo, o desenho pede uma admiração detida, uma contemplação nada apressada. O banco de linhas severas ajuda o público a desacelerar o ritmo. A cor negra que invade as anteriores alvas paredes do espaço também auxilia na geração de uma experiência particular a cada participante. “Quanto mais industrializadas e tecnológicas são as aglomerações humanas, mais se faz imprescindível a elaboração de um antídoto para a sobrevivência no formigueiro”2, frisa Lagnado.
Gorski é bem-sucedida na difícil empreitada de ressignificar o cotidiano, como atesta esta individual Paragem, assim como a anterior intervenção Paisagens Construídas, feita nas amplas fachadas do Sesc Pinheiros, também neste ano, e em Raízes Aéreas, outra intervenção disposta em preto e branco no niemeyeriano Pavilhão da Bienal, durante a SP Arte 2010.
É interessante também enfatizar que, ao lado da imediatamente anterior exposição Perto Longe, de Aline van Langendonck, e de Aéreos, de Fabio Flaks, a tríade de proposições de tais artistas paulistanos forma uma inventiva indagação sobre a megalópole de São Paulo, friccionando conceitos, ideias e práticas que se situam nos interstícios entre artes visuais e urbanidade. As vazias pistas de skate nas pinturas de Flaks, a sobreposição de grides, linhas e sons de Van Langendonck, dentro e fora do espaço expositivo, e, agora, os traços que se derramam nas negras camadas colocadas por Gorski na sala trazem questionamentos potentes sobre as relações entre o subjetivo e o coletivo, entre o essencial e o partilhado. “Por isso dizemos NÃO às 'casas' e SIM ao habitar”3, provoca novamente a Escola de Valparaíso.
Mario Gioia

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