"A profundeza abissal da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem abstrata
das mãos (gestos prontos),
e o atrito dos dias confunde as cicatrizes do tempo,
derramado sobre a mesa o poema
ignora nas pálpebras o pesadelo do sonho"

(Júlio Rodrigues Correia)





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1 de out. de 2010

HORA GRANDE

Tela - Francis Bacon



Minh’alma não se degrada
Não há líquido que faça derreter
Transforma-se, não enferruja
Descasca-se, enruga
Brilha metalizada
Quando a água vem e vem
Regendo orquestras
Do que pulsa, do que resgata
Há cheiro dócil da terra
Cio da carne, amor pleno
ciclos e suas ogivas
Estelar azulada, púrpura
Corre veia, veio, rio
entremeio de refrões
Dorme minha alma branca
à hora grande, até a chegada
Do outro ponteiro
da meia-noite
do meio-dia
Expurga sentidos
Lágrimas das mágoas
Mesmo ferro
Mesmo massa
Mesmo sangue
Não enferruja
Porque saliva
O Divino vinho



Cíntia Thomé


























****Tela - Francis Bacon

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