"A profundeza abissal da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem abstrata
das mãos (gestos prontos),
e o atrito dos dias confunde as cicatrizes do tempo,
derramado sobre a mesa o poema
ignora nas pálpebras o pesadelo do sonho"

(Júlio Rodrigues Correia)





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20 de set de 2007

OLHOS DE FOLHA MINHA...




OLHOS DE FOLHA MINHA...

O tempo à minha frente
Das folhas verdes que um dia fitaram
O único momento que o mundo se gritou em amor
Apoteose dos sentidos, da paz e da guerra
Eu e você
Eras o marinheiro pelas águas verdes
E o amor era o porto seguro
Nos olhos de folhas em barcas
Descansaram teu riso e teu minuto
Tua ilha povoada de querer-me
Receberam a luz do sol ardente do desejo
Criando raízes na terra vermelha
Coração molhado em vida poesia
Da manha e das noites que brotaram deste instante
Folhas verdes em anos de tempestades
Respiravam pelo caule da esperança
A memória instigava nas íris das folhas
Abraçando sem largar a tua presença jaz ausente
Olhos verdes, folhas verdes
Águas paradas num soslaio do tempo ganho, mas perdido
Trilhos teus cavados no submerso brilho
Desaguavam em pura saudade
Cresciam os olhares do querer nas raivosas raízes
Abertas folhas verdes na escuridão
À procura do rosto da flor que nasceu e despetalou
Olhos verdes, folhas verdes
Estagnados ao abandono dos dias e horas da vida
Os mares congelados espelhavam a tua imagem
De silêncio invernal...
Olhos de folha, folhas verdes
Esforçavam-se o reviver da flor do amor
Sem espinhos, pois já feridas
Pelo sonhar e pelas chuvas
Pingentes cristalinos machucavam os verdejantes mares
Dilúvio na alma das folhas minhas
E doentes no vazio do árido chão
No cancro advindo dos ventos sem respostas
Folhas verdes resistem às emboscadas no estio
Neste ultimo outono da vida (quem sabe?)
Folhas ao chão em ferrugem, sangue deveras latente
Voando... Sabe lá quantos dias ainda?
Sem o tempo à frente
Para as folhas voarem vermelhas eternas de amor para o céu
À procura da flor despetalada (ou inteira?) marinheira
A flor...oh! Flor
Do sol maior que fez o brilho verde deste olhar...
Eu e você
Para que perpetue no teu céu da boca
O grito do mundo...
Os beijos verdes mareados e marejados
Alados verdes
Os olhos de folha tua



Cíntia Thomé
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