"A profundeza abissal da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem abstrata
das mãos (gestos prontos),
e o atrito dos dias confunde as cicatrizes do tempo,
derramado sobre a mesa o poema
ignora nas pálpebras o pesadelo do sonho"

(Júlio Rodrigues Correia)





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9 de abr de 2008

PASSAGEIRA DA ILUSÃO


Imagem Ana Franco


PASSAGEIRA DA ILUSÃO


Talvez não esteja mais aqui
Quando as uvas estiverem sem suas sementes
E todas as tinas rachadas sem pés para amassar o vazio
Quando o trigal não será mais o espelho do sol
E sim a negritude, farinha negra, a terra
Minhas mãos não amassarão mais o pão
Entre os dedos sairão vácuos do vento
A luta para domar o leão do amor e da própria existência
A humanidade soltou os dragões, o fogo da maldade
As pedrinhas dos rios não chorarão alegria e dor
Sim, o silêncio, o mais nada...
A estrela chorará,
Mas não alimentará com sua lágrima a estrela do mar
O mar já deixou de ser
E os cavalos do rei estão morrendo de sede
O príncipe nunca mais foi visto na aldeia...
Sorte das flores que já fugiram e não viram nada
A boca não urgirá palavra, na garganta há o verbo amar entalado
Garrafas dos néctares sem gargalos
Baco e as lendas das tabernas
Cortaram bocas, mudas ficaram
O peito não arfará ais do querer e do que tanto quis
As pernas não estarão à procura das esquinas do pecado
Os cabelos brancos, repartidos e escondidos no nó do lenço da fome
Sustentará o que foi mais bonito, o Amor
Os olhos refletirão erosivos chãos, poeira, pedra, estio
Pensar em voltar ou ir em frente será luta aos olhos
Receber tapas na face, socos no estomago vazio
O grão da ampulheta sufocando o tempo e o corpo
Estagnar a vida assim foi decreto,
Um perigoso aneurisma, a resignação
Com direito da lembrança do que era dança
As folhas caíam e rodopiavam, dançando o ato final
Galhos balançavam e davam frutos sem que eu erguesse a mão
Chuva da fartura, dos desejos, lamber e morder com dentes a carne
Limpar os lábios, satisfeita, plena, ápice em sumos líquidos
Pássaros na janela, anunciando a vinda de um novo e certo dia
Passageiras ilusões
Cortinas rasgadas em fiapos cerradas
Entre as frestas rumores ainda de poema e poesia
Devastado mundo, encolhida vaidade, palcos apagados,
Mentiras serão expiradas, a verdade derrotará a mim
Tablados de areia não sustentarão a solidão
Sem orquestra, sem mestria
Por isso não haverá mais minha vida, personagem
Talvez não esteja mais aqui
Pois acolá, não vibrará... Já não cativará
Nem será mais
Era uma vez.


Cintia Thomé

Jan/2008

**dedico ao Poeta Benny Franklin, Belém Pará

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